Memórias

O projeto Memórias, culmina em uma exposição da multiartista visual Gabrieli Salvalaio Figueredo, realizada no Museu da Terra e da Cultura de Morro Grande, com o apoio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura.  A exposição nasce de uma urgência sensível: a necessidade de reunir, acolher e salvaguardar aquilo que o tempo, inevitavelmente, tenta apagar. As obras são um encontro entre a matéria física, o afeto e a permanência, uma investigação poética sobre a efemeridade da vida, das histórias e das paisagens que nos cercam.  Visualmente, o espaço pulsa em um diálogo constante entre o ontem e o hoje.

A identidade da exposição é profundamente orgânica e tátil: ela se constrói através do contraste entre a sobriedade do preto e branco e a vivacidade de bordados coloridos feitos à mão; entre a rigidez de metais que se oxidam e a fragilidade de objetos fragmentados e silenciados pelo passar dos anos.  O tempo corre como um fluxo invisível que transforma identidades, desgasta superfícies e ressignifica objetos cotidianos. Cada peça presente na exposição funciona como um dispositivo de resistência, um testemunho material que se recusa a desaparecer por completo.  Mais do que observar, o público é convidado a sentir. Trata-se de uma experiência multissensorial, onde o toque é permitido e encorajado. Afinal, o fragmento que tocamos hoje é a base da memória que levaremos para o amanhã.

Sobre as obras

“LIBROS GABAGLON”

A obra “Libros Gabaglon” constitui o ponto de partida da jornada artística que culmina na série “Memórias”. A sua concepção surge da complexa relação da artista com a memória de longo prazo, manifestada de forma não linear e fragmentada. Diante dessa realidade, a artista desenvolveu o hábito de colecionar objetos que funcionassem como âncoras de memórias para vivências pessoais.

Originalmente concebida como uma instalação, a obra “Libros Gabaglon” materializava essa coleção de objetos, transmutando a memória pessoal da artista em uma narrativa tangível. A peça refletia a busca por preservar o que é efêmero e a necessidade de registrar a vida antes que ela se desintegre. Se tratava de um altar, cujos “pés” da mesa eram cobertos por raízes retorcidas e sobre o tampo, um diorama com textura de gramado, onde ficavam uma árvore da vida, esculpida em argila e com folhas de fios de cobre, junto aos objetos pessoais da artista e uma estufa/ateliê em miniatura. Com o passar do tempo, a própria escultura entrou em processo de degradação, restando apenas fragmentos que, de forma paradoxal, reforçam a temática central da exposição: a efemeridade. Atualmente, esses fragmentos servem como um testemunho material do passado, convidando o público a uma profunda reflexão sobre a importância de salvaguardar não apenas o que é tangível, mas também as narrativas que conferem sentido à nossa existência.

“MEMÓRIAS SEM HISTÓRIAS”

A obra “Memórias sem Histórias” é uma escultura que prossegue o diálogo iniciado por “Libros Gabaglon”, mas com uma abordagem mais focada na inacessibilidade da memória. Confeccionada com restos de cabos de cobre de variadas espessuras e fragmentos de objetos encontrados na rua, a escultura adota o formato de uma gaiola. O propósito da gaiola é simbolizar a impossibilidade de acesso às memórias contidas nesses fragmentos, já que a chave para a abertura da obra está presa em seu interior, junto aos próprios objetos.

A peça é envolta por uma malha de fios e “folhas” de cobre que sugere, de maneira poética, a degradação do tempo. Além disso, a oxidação natural do cobre, que era brilhante em sua concepção, reforça a temática da efemeridade. O desgaste do material com os anos aumenta o significado da obra, demonstrando que, assim como o metal se transforma e perde o seu brilho original, as memórias podem se tornar inacessíveis e se deteriorarem com o tempo.

“MEMÓRIAS APAGADAS”

A obra “Memórias Apagadas” é uma produção audiovisual que aprofunda o diálogo do projeto sobre a memória, focando na sua supressão histórica. A peça é uma crítica direta ao período da Inquisição, utilizando esculturas de bruxas em diferentes estados de tortura, criadas pela artista. O vídeo também integra imagens da própria artista em performance e trechos de um livro sobre a história da bruxaria, com a recitação de um poema e uma trilha sonora que reforçam a narrativa.

O trabalho tem como objetivo central questionar como os brutais métodos de tortura da Inquisição se tornaram parte da memória histórica, enquanto o conhecimento ancestral feminino e a identidade de milhares de mulheres foram sistematicamente silenciados e apagados. A obra, ao mesmo tempo em que retrata a violência, resgata a memória dessas vidas e conhecimentos que foram arrancados, reforçando o poder da arte como um meio para resistir ao apagamento histórico e dar voz às narrativas esquecidas.

“MEMÓRIAS DO FUTURO”

Composta por 20 fotografias em preto e branco, registradas ao longo de um período de sete anos, a subsérie é um registro poético da efemeridade da vida e da paisagem local. As imagens retratam locais, objetos e momentos que estão em processo de desintegração, destinados a se tornarem apenas memória. A ausência de saturação nas fotografias intensifica essa sensação de antiguidade e desgaste.

Para contrastar com a sobriedade das imagens, cada fotografia é impressa em canvas e recebe bordados coloridos feitos à mão, utilizando técnicas tradicionais. Os bordados representam a eternização das memórias, que podem ser preenchidas de alegria e vivacidade, mesmo diante do tempo que passa. A obra também explora a fisicalidade através de um processo de boleagem, que cria relevos e texturas táteis nas fotografias.

Dispostas de forma inovadora, as obras convidam o público a uma experiência multissensorial, permitindo que os visitantes toquem os bordados e sintam as texturas. Esta interatividade é crucial, pois reforça o conceito central da exposição, que busca resgatar e preservar a memória não apenas visualmente, mas também através do toque.

A exposição está aberta a visitação de 09/07/2026 à 25/08/2026 no Museu da Terra e da Cultura de Morro Grande, dentro do Centro Cultural Pedro Dal Toé:

EndereçoR. Rui Barbosa, 761 – Centro, Morro Grande – SC, 88925-000

Telefone(48) 3420-0332

Horário de funcionamento

terça-feira07:30–11:30, 13:00–17:00
quarta-feira07:30–11:30, 13:00–17:00
quinta-feira07:30–11:30, 13:00–17:00
sexta-feira07:30–11:30, 13:00–17:00
sábadoFechado
domingoFechado
segunda-feira07:30–11:30, 13:00–17:00

Apoio:

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